«Gostava de miniaturas: miniaturas de bolos, casas de bonecas, carros da Matchbox, chihuahua e bonsais. Vivia numa tiny house e vestia de forma minimalista. Era frugal na alimentação, minimal na música e só lia micro-ficção em livro de bolso. Em criança, tinham-no levado ao Portugal dos Pequeninos e na escola lera e relera Gulliver em Lilliput. De Alice no País das Maravilhas, fixara a sua capacidade de se tornar tão pequena que pudesse entrar em qualquer espaço e, de entre os contos de Perrault, O Polegarzinho era o seu favorito. [...] Aquela pulseira dava-lhe azar. Sempre que a punha no pulso acontecia-lhe alguma coisa ruim. Júlio acabara o namoro com ela no dia em que estreara a pulseira; a avó morrera no dia em que, lembrava-se bem, usara a pulseira com aquele vestido vermelho que entretanto deixara de lhe caber e partira a perna na tarde em que tinha a pulseira e as calças de veludo azul. Claro que, quando olhava para a pulseira, via o Júlio, a avó, as canadianas que usou durante meses e revivia as diferentes dores que esses episódios da sua vida lhe tinham causado - por isso a pulseira lhe dava agora, só por si, apertos de coração, lhe trazia lágrimas aos olhos e a fazia coxear, reavivando-lhe a dor na perna e nos pulsos.[...]»