Livro distinguido com o PRÉMIO MONOGRAFIA da Sociedade Histórica da Independência de Portugal.
Estamos perante um livro fascinante que nos propõe uma viagem ao universo do barroco ibérico para observarmos criticamente as representações contrastantes da mulher. Neste estudo, de uma época cultural que é ponto de chegada da grande construção ocidental do mito da mulher, os autores focam a atenção particular e demorada na floresta imensa do sermonário do Padre António Vieira e na forma como o pregador de Seiscentos configura as imagens em torno do universo feminino, recebendo, reproduzindo e reelaborando a herança cultural e mental da compreensão da mulher e do seu lugar na sociedade. O livro demonstra que o genial e desconcertante Padre António Vieira é irremediavelmente filho do seu tempo, embora em alguns aspetos acabe por surpreender-nos com algumas observações no que ao género feminino diz respeito.
"Poucas vezes o estudo dos sermonários tem sido orientado para obter um maior conhecimento das mentalidades, atitudes, doutrinas e comportamentos que dominam a sociedade de uma época determinada. E ainda são mais raras as ocasiões em que, a partir destes textos, se pretende focar a figura da mulher, vista e julgada sempre sob um olhar masculino que integra tanto o indivíduo inserido no seio de um grupo social como as instituições detentoras do poder, especialmente a Igreja. Apenas nas últimas décadas se vem observando uma certa vontade de preencher tal lacuna e de demonstrar a validade da oratória sacra como fonte para a investigação da realidade e da representatividade de um sistema de valores que caracteriza o organigrama sócio-religioso-político e que é aplicado ao universo feminino. A presente obra pretende contribuir precisamente para reduzir esse vazio historiográfico, sociológico e/ou literário, lançando mão das pregações de António Vieira e analisando a presença que ali tem a mulher tanto como coletividade quanto como ser individual, que sobressai do comum pelas suas ações excecionais."