A cidade de Aliahova, após um período em que atingiu o apogeu de uma civilização requintada, é assolada por um mal insidioso que a afasta da sua própria história e das próprias crenças responsáveis pelo seu esplendor, como se a vida, chegada ao ponto máximo da sua realização, resolvesse voltar-se contra si própria.
O amor de olhos fechados, é o do narrador enfeitiçado por esta cidade com quem decide partilhar o seu destino - é também a sua paixão por Deborah, que insistiu em não abandonar Aliahova até à catástrofe final da qual ambos conseguem escapar, a fim de poderem passar o seu testemunho.
O olhar ansioso de Sahli, o herói, constata a destruição sistemática dos valores, dos monumentos e dos homens. Num clima ofegante, que não exclui o humor, assiste-se a uma progressão inexorável e a uma sucessão de perseguições nas ruas, passeios oníricos à beira-mar, contestações universitárias pitorescas, investigações, assassínios e incêndios que constituem um contraponto em relação à luz presente nas cenas em que se desenvolve um encantamento total perante a existência.
Todavia, a luminosidade da técnica, os cenários sumptuosos em que se misturam os luxos exóticos de Bizâncio, Roma e Veneza, servem apenas para realçar os sentidos dessa ficção política que culmina numa dimensão apocalíptica. Através de uma aventura imaginária, o leitor reconhece as convulsões contemporâneas. Poderemos lutar contra a dissolução, poderemos amar sem ser de olhos fechados?
Michel Henry, professor da Universidade de Montpellier e um dos grandes pensadores da fenomenologia francesa, autor de vasta bibliografia, é reconhecido e estudado mundialmente. Abre este livro uma sua carta ao leitor português.