Uma Professora ao Canto do Olho
"(...) Quando terminei a leitura de mais este capítulo, depois de pensar um pouco, comentei para o meu avô, perplexo:
- Gostei da maneira inteligente como ela encarou a sua aposentação...
- E, no fundo, a preparou, escrevendo contos para crianças. É um modo interessante de continuar com elas, sobretudo quando se gosta delas, como ela gostava... E de as continuar a compreender, como sempre as compreendeu... De viver o seu mundo... pela escrita. Terminou a sua vida activa de professora como começou, entregando-se ao seu grande amor: o ensino de jovens, especialmente os mais carenciados e difíceis. Para mim, ela deu-me, passados todos estes anos, a sua última lição: a da sensibilidade.
Uma nova lágrima apareceu ao cantinho do olho do meu avô. E a sua professora lá estava, como sempre, alongando-se pelo rosto, devagarinho, muito devagarinho...
- Vamos prosseguir, Jorge! - a sua comoção era evidente, deixando-o entristecido.
Eu tentei disfarçar quanto pude. Confesso que também estava comovido... Talvez por ver aproximar-se do fim uma vida que valera a pena: a da antiga professora do meu avô!
- Mas, avô, eu já terminei a leitura. Não estejas triste, está bem? Havemos de ir a Lisboa mais vezes, falar com a tua antiga professora, pois gostei muito dela, principalmente depois de termos lido e comentado o seu manuscrito. (...)"