O Rei das Sete Esposas
Pertencem os contos e lendas recolhidos neste livro maioritariamente ao município de Ainaro, a sudoeste de Timor-Leste, confrontando com o mar de Timor a sul, com Manufahi a leste, com Aileu a nordeste, com Ermera a noroeste, com Bobonaro a oeste e com Covalima a sudoeste, mas nele convivem também uma fábula de Ermera, um par de histórias de Covalima e uma quadra de narrativas de Manufahi.
Sendo Ainaro um dos dois únicos municípios que confrontam com outros cinco, dos treze que compõem Timor-Leste (e apenas um com seis, Aileu), as histórias que aí circulam revelam naturalmente fronteiras fluidas, que tornarão ocioso o exercício de as radicar num espaço tão pequeno e tão amplamente articulado com os demais. As várias línguas neste livro evocadas evidenciam-no desde logo (o mambai, o quémaque, o tétum, o búnaque, além do português em que são narradas e do indonésio).
O Rei das Sete Esposas, conto que dá o nome a este livro, remete para uma característica importante do município de Ainaro, o seu relevo acidentado. Dominado pela montanha mais alta de Timor-Leste, o Ramelau, que partilha com os municípios de Ermera e Aileu, foi um território fundamental para a Resistência, oferecendo numerosos e inalcançáveis esconderijos aos guerrilheiros, suficientemente seguros para neles se entregarem os resistentes ao lenitivo, relaxante e encorajador costume de contar histórias.
A feliz conjugação do seu relevo montanhoso com a resistência timorense, que veio a desembocar na vitória, traduziu-se igualmente em ganhos patrimoniais: um enlace linguístico e literário que hoje se deixa ver neste livro. As histórias que uniram, reconfortaram, fortaleceram e orientaram os guerrilheiros nessas montanhas chegam hoje ao leitor naquela que foi a língua secreta da Resistência, por ser desconhecida do invasor, e que é também, para os Timorenses, a língua do Cristianismo, da Bíblia, do catecismo, bem como da ciência e do ensino aprendizagem: o português.
As histórias que Manuel Gomes de Araújo e muitos outros informantes timorenses contaram e escutaram por esses esconderijos não se limitaram a cumprir, nesses árduos tempos, essas funções de unidade, consolo, motivação e orientação, ou também a mais básica de afugentar o sono nas noites de vigília: ao albergá-las ciosamente na memória, tornaram possível a sua recolha e fixação de texto para as dar a conhecer neste livro, de modo que as gerações futuras possam contar, não apenas com a paz e a independência, mas também com este riquíssimo património cultural, literário e linguístico, preservando igualmente a arte timorense da tecelagem de tais, em coloridas fotografias.