Foi como um Rio
Um rio é uma árvore de água, filho do choro da chuva doce, escrito no corpo do mundo. O sonho esgaravata-lhe um botão, cálice, corola… explode flor, abre folhas, devagar, cresce haste… gracejo, acotovela seixos, resiste cânticos de constância, corre, briga, abranda, lavra letra e salpico, nas linhas das margens que forja… harmoniza novos braços, adensa o leito, afirma o tronco, esbelto, curva viajem, anda parado… por fora, finge que anda, mas flui, sentido por dentro… adormece espelho, guardador de imagens e lembranças, desagua, no fundo dos olhos de quem o olha, e afoga as raízes no mar, para lhe beber o sal que há nas lágrimas… tange búzios no peito da maresia… nas luzes do horizonte, solta um grito azulino de gaivota… giza no arco do céu, cor, o beijo pássaro, e na asa dos bons vendavais, imagina nova rota, Sol, chão de sede, searas, tempestade, solidões… no fim, pode ser o começar… como rio de pérolas perdidas no pranto de uma janela, fechada ao cinge gélido de Dezembro, esborratando as cinzas da tarde, dentro dos olhos parados de alguém…