As Vacas Não Me Olham Mais na Cara
«Já no início de As Vacas Não Me Olham Mais na Cara, a narradora afirma que aprecia em segredo a sua mão de bicho. Essa mão animal é, sem dúvidas, a mão da ficção, membro que inaugura um outro tipo de gente, feito um tanto de palavras, outro tanto da experiência subjetiva de ver e construir um mundo para si: seja pela aquisição da língua, da descoberta da escrita e da arte, do cinema, do amor, da desilusão (...). Definitivamente, trata-se da mão da infância que se multiplica nas patas de uma animalidade que a narradora conquista para si quando o mundo que deveria ser seguro se mostra insuficiente, fragmentário. E esta mão, animal e humana, inventora e inventada, é aquela que escreve cartas, a própria vida, essa história que é contada aqui no ritmo de um poema ou, melhor, de uma oralidade que remonta ao poético da fala, da respiração, do que se mastiga e se transforma. Neste que é o seu primeiro romance, Dora Freind tece, borda, rumina uma fábula sobre crescer, tornar-se gente, com o ônus e o bônus disso, sobre ser criança e se tornar adulto, sobre ser menina e se tornar mulher. Temos aqui uma menina que cresce em meio ao mutismo da mãe, ao abandono do pai e aos mugidos das vacas. Que, no curral, sente-se não apenas acolhida, mas parte de uma comunidade e que, crescendo, se humanizando, aprende a duras penas que se acostumar com a perda é parte indissociável de ser gente, seja para o bem, seja para o mal. (...) Com uma escrita entusiasmada (e entusiasmo vem do grego ter o deus dentro de si), Dora Freind conduz o leitor por uma trama inquietante e íntima, criando um microcosmo de personagens e paisagens memoráveis para um romance de formação tanto excêntrico quanto admirável. Uma bela estreia.»