O Almoxarife Almaxerifado & Seu Glossário Viralatas
O Almoxarife Almaxerifado & Seu Glossário Vira-Latas expõe, na linha das grandes obras romanescas modernas, o caráter conturbado, fraturado, evidentemente inacabado da forma romance.
Em suas duas partes indicadas pelo título, a obra dispõe a representação da subjetividade atormentada pela falta do seu objeto de desejo, cuja sigla já coloca o sublime no limite do grotesco, já funde o alto e o baixo e aciona no leitor a predisposição tanto para o choro quanto para o riso: MH.
Tudo é muito sério na vida, mas tudo também é brincadeira, o pesaroso - o sofrimento de um amante - tem sua contraparte de jocoso, e essa proximidade é o que, no limite, denuncia a condição humana como… vira-lata.
O romance, que se afirma especialmente pela crise de identidade textual que exibe, podendo ser lido da perspectiva de vários tipos textuais, desvela-se em O Almoxarife Almaxerifado & Seu Glossário Vira-Latas como dispositivo de desnudamento da caninidade do humano, de um rebaixamento do ser, um arruinamento que vai às raias da animalidade.
O vira-latas, do ponto de vista da moralidade humana, não é mais um animal, um pet mimado, mas um sub-animal, uma sub-raça de uma supostamente verdadeira raça. O romance de Leite Brandão, sob o signo de João Henriques Barreto-Lima, pai de Lima Barreto, o escritor viralatizado pelas forças racistas do seu tempo, é um caso de crítica da razão humanista.
A decodificação de signos investidos de considerável opacidade, que é o que se pratica em todo glossário, é um recurso irônico de que os autor (sic), fonte ambígua de uma percepção aguda do real, lança mão para desfigurar o humanismo.
As imagens de vira-latas, que atravessam todo o glossário, logram objetivar uma espacialidade no livro, metaforizam lugares públicos urbanos onde vira-latas vivem seu abandono cotidiano, sempre escorraçados por aquelas e aqueles que se encarregam de zelar pela ordem supostamente justa das coisas.
Cada vira-lata é um Lima Barreto, um Arthur Bispo do Rosário, um desamparado pelos deuses e deusas, deixado ao deusdará em nome da razão humanista sacrifica os diferentes para garantir a suposta saúde da civitas, da cidade dita civilizada.
O grande romance coloca o tempo de sua produção em xeque, resulta de um mal-estar nesse tempo, é um processo crítico que se declara em sua forma arquitetônica, no sentido bahktiniano, visível. Isso é o que encontramos em O Almoxarife Almaxerifado & Seu Glossário Vira-Latas, e é o que a Inmensa Editorial, ao publicar este livro, deseja que o leitor português ou com acesso a produção literária em língua portuguesa possa comprovar.
Temos aqui um romance que extrapola a rotina romanesca no Brasil atual e, a partir de referências como Lima Barreto e Franz Kafka, instiga nossa idéia logocêntrica de humanidade.
Um romance para ler, sentir e pensar, que se enriquece ainda mais com um sensível prefácio de um ícone do exercício do pensamento crítico no Brasil : o escritor, ensaísta, tradutor e artista visual Evando Nascimento.