"Quem não conhece a Filosofia poderá pensar que procurar o sentido da vida é a tarefa central dos filósofos. Isto é historicamente falso; na sua maior parte,
os filósofos não abordaram o problema do sentido da vida, e os que o abordaram não fizeram geralmente disso o tema principal das suas investigações. O
leitor comum poderá igualmente esperar que os filósofos se pronunciem um pouco como gurus, declarando do alto da sua inacessível montanha qual é o
sentido da vida. E a nós, meros mortais, restar-nos-ia então seguir tais oráculos, ainda que nem os compreendamos muito bem. Esta concepção resulta
talvez da dificuldade em compreender a natureza da Filosofia. A Filosofia não é religião, nem uma prática iniciática de vida; ao invés, é o lugar crítico da
razão, como por vezes se diz. Estudar Filosofia é aprender a ser crítico, que é precisamente o que os gurus não se podem dar ao luxo de permitir aos seus
acéfalos discípulos. (…) A Filosofia não é um corpo de conhecimentos que nos baste assimilar acriticamente, mas antes a actividade crítica de estudar
ideias e argumentos minuciosamente, para ver se serão plausíveis ou não. Por isso, não se encontra nos melhores filósofos um conjunto de instruções
esotéricas para dar sentido às nossas vidas. O que se encontra são estudos cuidadosos de diferentes ideias e argumentos sobre o problema. Isto não
significa que não existam conclusões consensuais, entre os filósofos actuais, sobre o sentido da vida. Significa apenas que o trabalho filosófico é
fundamentalmente a discussão minuciosa e paciente dessas conclusões e dos argumentos que as sustentam." - Desidério Murcho|Público-alvo: público em
geral, estudantes e professores de Filosofia.