Hoje o temporal abateu-se sobre a Ilha. Não é que não estejamos habituados, mas nestes dias sinto sempre mais a pequenez desta terra, o esquecimento, o abandono dela à sua sorte. E de nós. Como se não fossemos território de importância para os deuses. Como se estivéssemos prisioneiros em terra de ninguém e o resto do mundo se avistasse para lá do muro.
Começou logo de manhãzinha, para não perder tempo. Um vento agreste a tentar arrasar a minha banksia, a deitar por terra as camélias em botão… Uma chuva em grossas escorrências pelos muros do quintal, e caindo na minha clarabóia com um barulho atroador. E, o pior de tudo, este nevoeiro denso, que se abate sobre nós, silencioso e prepotente, que nos encharca os ossos e nos deixa a alma triste.
Olho para os lados da Serra de Água de Pau e não a vejo. Angustia-me não vê-la. Faz parte da Ilha. É ponto de referência, como uma bússola, quando nos perdemos na noite. E é como me sinto. Perdida na beleza envenenada desta Ilha, que dorme e sonha "embalada ao som do mar", como disse Antero um dia.