«Desertamos das almas e ocultamo-nos em sonhos. Vagamos sobre a imensidão das quimeras que teimamos urdir. O céu permanece vazio, sem almas ou sombras. Os anjos tombam nas superfícies macadamizadas de uma existência por encontrar. Por vezes, somos o que somos. Perdemo-nos noutras. Confundimos lágrimas com arrependimentos e arrependimentos com persistências. Condenaram-nos a permanecer, ficar nesta aldeia, neste lugar, neste mar tão vasto que nos faz chorar de tanto fastio. Somos quelónios, não sobrevivemos ao ar livre, nem de cabeça erguida.»
É com uma citação de Dante Alighieri, evocando o Inferno (Canto I, 4-6) de sua magna opus La Divina Commedia, que Pedro Chambel inaugura o seu segundo livro de poesia Um Instante na Noite.
Trazendo alusões a Fernando Eduardo Carita, Rainer Maria Rilke, entre outros cânones da poesia portuguesa, como Ruy Belo e Daniel Faria, o poeta lembra-nos que, neste breve instante que nos é dado a respirar, em um resumo da existência humana, estamos no escuro e atravessamos o deserto da existência feito quelônios, devagar e sempre, a sofrer o peso do corpo, a ter dificuldades de suportar o ar e de manter-nos de cabeça erguida durante este percurso na terra.
Com o posfácio do coordenador da colecção António Carlos Cortez, o livro divide-se em três secções. em à escuta da noite, apresentam-se 51 textos de poesia em prosa, seguidos por seis poemas sob o capítulo Palavra Fendida (mutilada), para finalizar a obra com os 23 poemas encartados no capítulo Céu sem estrelas. Em Chambel, a filosofia e a religião são trazidas como matrizes estruturantes do pensamento humano, com a religião cristã, o esoterismo e a mitologia fundindo-se através das narrativas bíblicas e mitológicas que recriam, de forma alegórica, a experiência da condição humana.
Como lembrado por Cortez, Chambel traz-nos a sede do infinito, a solidão e o silêncio, a busca da verdade interior e a compreensão de que, distantes do território edénico prometido, apenas na poesia é-nos possível dominar as artes do lembrar e do esquecer, do saber viver e do saber perder.