Neste novo livro, Aníbal C. Pires oferece-nos seis anos de crónicas (2003-2008).
Guia-nos pelo interior do país e pelas memórias da infância, pelos pequenos nadas que nos povoam os dias, mas também pelos acontecimentos que marcaram a vida coletiva naquele pedaço de tempo. Com ele revivemos, por exemplo, a calamitosa ocupação do Iraque e a tragédia do tsunami no Oceano Índico; com ele refletimos sobre o drama inominável das migrações, o flagelo letal dos incêndios e o poder fatídico dos preconceitos; com ele viajamos pelo arquipélago ao mesmo tempo que damos um saltinho a Cabo Verde; com ele revisitamos os vários panoramas políticos de então. Opera-se, entre nós e estes textos, um vivo diálogo. É possível que não estejamos sempre de acordo, mas sentimo-nos sempre, enquanto leitores, uma voz fundamental dessa conversa.
Seja em jeito poético, seja em jeito cronístico, entrar num livro do Aníbal implica, invariavelmente, ouvirmos a toada do mundo, num inabalável clamor por mais justiça e mais humanidade. E - fortuna nossa! -, a essa toada junta-se, uma vez mais, a mão encantadora e sempre surpreendente da Ana Rita Afonso, desta feita com ilustrações em técnica mista, onde recorte, colagem, fotografia, café, giz e caneta de gel nos concedem o deleite tridimensional da cor. E assim vamos nós, entre palavras, imagens e este outono que se instala, procurando algum abrigo num mundo cada dia mais inóspito.
Renata Correia Botelho