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Um táxi. Cinco motoristas. Cinco dias úteis. Inúmeras histórias escritas nos estofos gastos de um velho Mercedes. O passo lento do taxímetro leva ao destino personagens que se revelam durante o percurso da viagem e das suas vidas.
Taxicidade é um livro que nasceu do encontro entre cinco jovens amigos desejosos de escrever e explorar em texto a sua criatividade. Andréa, Bruno, Carlos, Elsa e Nelson, os autores do livro, conheceram-se num workshop de escrita criativa no Espaço T, no Porto. O gosto pela escrita e as afinidades levaram-nos a manter o contacto após o fim do curso. Foi num desses encontros que nasceu a ideia de aproveitar as diferenças de estilo para criar uma unidade comum — um livro cujos contos reflectem bem a individualidade de cada um, mas cujo tema central confere o fio condutor necessário à narrativa. Um táxi. O Porto. Cinco dias. E o resto ficou ao critério de cada um...
Antes de mencionar sucintamente cada uma das cinco histórias ou contos de que este livro é composto, gostaria de me referir ao cenário que é proposto como o seu pano de fundo, ou seja, ao seu motivo ou tema comum: um táxi na cidade. Trata-se de um espaço com um potencial imagético peculiar por várias razões. Em primeiro lugar, as viagens de táxi representam geralmente um contacto entre pessoas desconhecidas. Ainda que o propósito dos utentes seja normalmente o de se fazerem transportar a um determinado destino, a dimensão de inesperado pode atravessar estas viagens. Uma tal dimensão de inesperado não está muitas vezes dissociada da efemeridade do contacto e do carácter casual e descomprometido dos diálogos que podem surgir para passar o tempo. Em tais contextos a comunicação pode ser uma surpresa. Por outro lado, apesar da confiança tácita que depositamos quando viajamos de táxi, não deixa de existir uma desconfiança latente: afinal, as pessoas não se conhecem de lado nenhum, nem sabem nada sobre a vida profunda de cada um. De novo, a surpresa espreita. E as estórias podem surgir. É neste cenário que os nossos autores desenvolvem as suas capacidades imagéticas e narrativas e burilam a escrita de modo a envolverem os leitores no processamento de cada história. É natural que, sendo este livro constituído por contos de autores diferentes, os leitores sejam confrontados com registos de escrita diferentes e com formas de imaginar diferentes. E é isso que acontece neste livro. Mas devo assinalar, no entanto, que para além do fio condutor temático e do táxi ser sempre o 73, a capacidade de prender os leitores à escrita é também comum aos nossos autores. Como não pretendendo, com esta pequena apresentação, desvendar aquilo que ao leitor cumpre fruir através da leitura do livro, referirei apenas sucintamente o enquadramento dos contos que este livros apresenta.
Na conto da autoria de Andréa Menezes — «Um homem comum» — vemos como, surpreendentemente, a opacidade de vida afectiva íntima das pessoas pode irromper numa conversa de estranhos — o taxista e dois dos passageiros dessa jornada — e levar a quebrar o gelo comunicacional que tantas vezes torna dolorosa uma proximidade conjugal vivida como incompreensível e sofrida distância. Este é o núcleo temático do conto: o desamor como desencontro que perdeu o ânimo e a fé na comunicação — era esse o azedume em que vivia o taxista — e, simultaneamente, o vislumbre do encontro pela palavra que de novo ousa enfrentar o desalento e batalhar pelo amor. A matriz romântica desta história é, pois, acentuada.
No conto do Bruno Oliveira — «O farol» — a luz do farol é metáfora para nos lançar num mundo de estranhas viagens, de estranhos passageiros, e de estranhos destinos. Imprimindo uma dimensão surrealista à sua narrativa, o mistério e o suspense adensam-se progressivamente e o acumular de sinais vai conduzindo o leitor para um fim inesperado. O taxista, que inicialmente cumpre a sua missão de transportar os passageiros, acaba por se ver fortemente envolvido na história quando se depara com o grande amor da sua vida na cabina do seu veículo. Mas, nesta estória, os extremos tocam-se e a vida e a morte rondam-se sempre uma à outra… Basta alguém que lhes dê a mão.
No conto da Elsa Semedo — «Missão Táxi» — a via de acesso às histórias é o retrovisor. É ele o narrador, é através dele nos tornamos familiares com o perfil do taxista que conduz o táxi e com os personagens que são transportados no banco de trás. Também aqui a dimensão surreal está presente, quer pelas situações comunicacionais bizarras e humorísticas com que somos confrontados, quer pela dimensão de twilight zone para que a viagem do reincidente passageiro — Dom Melo Phargatello — nos remete. E vemos gradualmente como é que nesta estória a «missão táxi» se acaba por transformar numa «missão terra».
No conto de Nelson — «Há cada Diabo» —, a apetência para a situação de limiar é dada pela identidade única do passageiro que a Justino, o taxista do 73, é dado transportar. Não gosta que o tratem por Senhor, prefere que o chamem Doutor. Mas não se trata de um intelectual, antes de um gestor dos tempos. A viagem é longa e o humor é uma constante nesta narrativa. Para além de diálogos inspirados que recorrem a trocadilhos e a segundos sentidos das palavras, o taxista desta história é não só desvendado pelas conversas que mantém com os passageiros mas também pela voz off que nos devolve em palavras os seus pensamentos e comentários. Habituado a transportar pessoas sui generis, Justino Fonseca pensa que lhe calhou mais uma dessas bizarras personagens na rifa e o seu tom de gozo só desaparece quando a menção de um nome torna tudo mais sério.
Finalmente o conto de Carlos — «Sentido único» — coloca-nos a via única da psicopatia. O taxista deste conto destila a sua obsessão pela unicidade e a sua repulsa pelas imitações e pelos sósias, fazendo de cada passageiro vítima das pulsões que assomam na personalidade oculta e conturbada que nele habita. Num imaginário sobressaltado que corre desenfreado pela mente do condutor, os leitores apercebem-se de que algo de muito estranho se passa e que os utentes do táxi correm perigo de morte. Escapa o Júlio Isidro — mas será mesmo o próprio? — apesar de deixar para trás a bagagem. O conto, que se desenvolve em crescendo e ao sabor da esquizofrenia à solta do taxista deixa antever um final trágico. Mas é preciso esperar até à última página.
E, referidas sucintamente as estórias, há agora que fazer algumas considerações finais.
A primeira é para dizer que é com gosto que acolhemos estes amantes da escrita como novos autores da nossa editora. Tem sido nossa politica facultar a autores que procuram editar o seu primeiro livro dar-lhes essa oportunidade. E, sempre que isso acontece, temos esperança que aí possa começar um bonito percurso.
Um primeiro livro, por si só, não é nenhum percurso, mas representa um importante passo. Um passo que deve ser acarinhado e envolvido no gosto da partilha.
A segunda consideração final é para aconselhar, naturalmente, a leitura do livro, pois que, como editor, acredito que ele pode proporcionar o prazer de uma leitura que vale a pena partilhar. Provem as palavras, pois, e digam de vossa justiça.
Espaço era uma Vez no Porto Porto, 20 de Dezembro de 2008 Rui Grácio
366
de Carlos Luís Ramalhão
A Estação da Sombra
de Léonora Miano
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