Este ensaio propõe traçar sincrónica e diacronicamente as linhas do processo da moderna «barroquização» literária, e nomeadamente poética, em Portugal. Como aconteceu, de resto, em outras literaturas, nomeadamente a sul-americana e a europeia, o «retorno do barroco» português participa, por um lado, na redescoberta teórica do século XVII (esquecido ou mesmo recusado pelo cânone historiográfico) e nas suas manifestações de arte e, por outro, na retoma formal e estilística (mas também de certos temas e figuras) por parte de alguns poetas (Jorge de Sena por exemplo), já no início da segunda metade do século XX. A partir do momento em que todo esse processo muitas vezes não passava de um reconhecimento de uma alegada relação, ou mesmo de afinidades, de semelhanças, entre o Barroco histórico e a produção artística moderna, nas apreciações críticas da década de 50 e de 60 em Portugal, o próprio Barroco tornou-se num «espelho» cujos reflexos ajudaram a melhor perceber certas tendências que irão informar a produção poética que vai grosso modo desde a segunda metade da década de 50, depois do fim do Surrealismo, até à década de 70. À tendência barroquista que integra a família metafísico-religiosa seguir-se-á uma análise da Po.Ex. onde, sobretudo na obra teórica e poética de Ana Hatherly e E. M. de Melo e Castro, o barroco desempenha um papel impulsionador pelas suas modalidades de tradução lúdico-paródica («Eu sou portuguesa e o meu estilo é barroco») e sua formalização e reescrita concreto-visuais. Por fim, analisar-se-á o modo como o barroco, ainda na Modernidade tardia, continua a produzir as suas metáforas e a recair formalmente na lírica discursivista de poetas como Herberto Helder e Ruy Belo.