Escritos e reescritos durante a pandemia e nos anos seguintes, os poemas de Substâncias mostram-nos uma nostalgia e uma tristeza que por vezes roça a crueldade. Mas deles não deixa de emergir a ironia, inclusive o sarcasmo que interpela a vida quotidiana e os problemas com que se debate esta sociedade marcada pelas redes sociais e cada vez mais pela inteligência artificial.
Vítor Gil Cardeira olha para o que escreveu e fala de «poemas em tempo de peste», assinalando que «a infeção também os atingiu de forma incontornável e insustentável». Vê a poesia, no seu caso, como uma doença, algo que explica assim: «Aparece quando menos se espera, embora muitas vezes seja o resultado de uma exposição voluntária aos germes que a provocam e prolongam no tempo. Escrevo com sofrimento e estranheza, demoradamente ou de supetão. É uma doença crónica. E como doente crónico de poesia, gostaria de me curar de tão cruel maleita. A pesca lúdica, as danças de salão ou a filatelia seriam, certamente, uma atividade mais confortável, prazerosa e sociável.»
Ainda sobre a poesia, a sua poesia, o autor diz que «é verosímil, mas incompreensível». E adianta: «É interventiva, socialmente, mas de efeitos pouco visíveis, podendo chegar a ser corrosiva e brutal. Poderia, se a isso me dispusesse, explicar todas as palavras, todas as emoções que transporta. Mas o resultado seria a sua própria destruição.»