Os três textos dispostos em Sobre o Desprendimento foram escritos originalmente em médio-alto alemão no início do século XIV por Mestre Eckhart, uma figura mística e de prestígio no Ocidente cristão, que conheceu a infâmia de um processo de heresia, pois "quis saber mais do que convinha." Eckhart tornava vivo os textos sagrados e usava-os como ponto de partida para tecer interpretações livres, visionárias e supreendentes. O "desprendimento" está na base da doutrina espiritual de Eckhart. As suas reflexões versam não sobre um desprendimento voluntarioso ou que implique na separação violenta entre humano e natural, mas sim o desprender-se para repousar-se em si, ser-uno-consigo-mesmo. De alcance universal, tal exigência abissal da "pobreza em espírito", que tem deixado vestígios na história do pensamento Nicolau de Cusa, Ângelo Silésio, mas também Hegel, Jung, Heidegger e Bataille, suscita interesse muito além do cristianismo, em especial nas escolas de mística oriental. É próprio de Eckhart a audácia do desprendimento, a capacidade de conduzir a teologia para a vertigem do nada, com um gesto radical que lembra certos textos budistas.