Todo o homem é tudo. Dêem-lhe uma vida e viverá todos os opostos. Será religioso e será ateu, será pecador e será santo, arderá de amor e queimará de ódio, verdadeiro e mentiroso, honesto e desonesto, competente e incompetente. Nunca será uma só coisa, mas cada coisa a seu tempo e, por vezes, ambas as coisas ao mesmo tempo.
Pode esforçar-se por ser uma só coisa, pode julgar sê-la (quase todos o julgam), e pode inclusive quase sê-la, mas já teve ou terá momentos em que não conseguirá sê-la. Todo o homem é incoerente. Porque se não o fosse não seria homem. Mesmo o mais religioso tem momentos de ateu, mesmo o mais ateu tem momentos de religioso, mesmo o mais pecador tem momentos de santo, mesmo o mais santo tem momentos de pecador. E assim se faz o homem. Que só verdadeiramente se faz quando se reconhece contraditório, e é só a partir desse reconhecimento que alguma virtude se empreende na prudência do defeito que se lhe opõe.