Em Portugal as mudanças no tratamento dos actos de violência em contexto familiar têm vindo a acompanhar uma crescente visibilidade pública dos mesmos, traduzindo-se em inovações e alterações do ponto de vista legal, nas respostas ao problema por parte do Governo e de organizações (não-governamentais e outras) e na consciência social em relação à sua gravidade e às suas consequências ou efeitos. Daqui que se torne importante compreender a interpretação e a percepção por parte da sociedade no que concerne à violência na família, não apenas em relação aos actos violentos mas também no que se refere à definição social de vitima.
A percepção social corresponde às ideias partilhadas por uma cultura, num determinado período histórico (sendo sujeita a mudança), contribuindo para a construção de uma representação socialmente partilhada, que tem implícita a definição de normas e valores sociais.
Neste volume, são apresentados resultados de um estudo sobre a percepção social de vitimação das mulheres, decorrente de violência conjugal exercida sobre as mesmas pelo seu marido ou companheiro, realizado em 2001 no Concelho de Lisboa. Quando os maus-tratos conjugais configuram um crime público e supondo que os elementos contextuais dos comportamentos das mulheres vítimas de violência conjugal ainda não foram suficientemente estudados, importa conhecer a percepção da comunidade em relação às expectativas de comportamento por parte de uma mulher vitima de violência conjugal, em relação às expectativas quanto às medidas a aplicar ao agressor e em relação à motivação para intervir/ interferir numa situação de maus-tratos conjugais (envolvendo outros indivíduos). Pretende-se também contribuir para lançar a reflexão sobre em que medida a necessidade de punição do agressor é suportada pela comunidade e que formas e graus de punição aquela percepciona como mais adequados.