Alice interrogava-se muitas vezes, durante as suas caminhadas pela cidade, procurando casa e testemunhando tanta miséria social e humana! Como é que o Estado tinha abandonado, desde que ela se lembra, em criança, um país inteiro? Lembrava-se que, também, a sua região natal do interior se encontrava em profundo atraso e desprezo, obrigando muitos jovens a emigrarem, ou refugiando-se nas cidades da costa. Mas Alice via que também aí, nas próprias cidades do litoral, havia muitas dificuldades em arranjar habitação decente, e os salários dos operários eram muito baixos. Grande parte da população não conseguia viver discretamente, chegando ao ponto de não conseguir alimentar suficientemente a família! As rendas eram altíssimas e não equilibradas com as remunerações recebidas. Sentia uma grande injustiça social, não compreendendo bem como poderia melhorar a sua situação familiar. Não tinha apoio de ninguém, nem dos pais, nem do marido, nem de outras pessoas que a conheciam. Todos pretendiam apenas que trabalhasse constantemente, sem receber nada em troca! Júlia sentia que tinha, também, que perdoar a si própria, por todas as vezes que não seguira conselhos sábios de quem lhe queria bem e por ter, obstinadamente, seguido só os seus sentimentos. Atitude que marcava apenas uma liberdade pessoal de pensamento, de ação e de personalidade! Não podia ser visto como negativo, ou como condenável, mas, pelo contrário, como fruto de uma determinação pessoal, bem definida! Seria oportuno sentir, com grande orgulho, o facto de ter transmitido, ao longo da sua vida e nas suas lides profissionais e familiares, uma série de diretrizes formativas, emotivas e humanas, repletas de orientações culturais e de conduta, altamente positivas para as novas gerações! Tudo isto tinha constituído a sua grande missão neste planeta. Mas ter consciência da importância do seu percurso existencial, daria a Júlia a serenidade de espírito fundamental para viver a sua ulterior retirada?