No início dos anos 30 do século passado, um desfalque pôs a descoberto um reiterado escândalo financeiro e a gestão ruinosa que, durante os anos 20, lançou na falência técnica a maior instituição bancária portuguesa de então, o Banco Nacional Ultramarino. Salazar, recém-chegado ao Poder, não perdeu a oportunidade de o transformar em bode expiatório, para mostrar mão firme e autoridade capaz de pôr na ordem as estioladas finanças de um país falido, ocultando, despudoradamente, a ciclópica dimensão do problema.
O autor desse desfalque é o personagem principal desta obra, onde se relata a sua vida glamorosa na Lisboa dos loucos anos 20 e a forma como foi utilizado e sacrificado, a Bem da Nação, pela nova ordem política e económica emergente. Investigado com rigor e isenção por figuras míticas da Polícia de Investigação Criminal, como o diretor, juiz Alves Monteiro Júnior, e o chefe Pereira dos Santos, acabou por ser vítima de um infindável processo onde, ontem como hoje, são visíveis as tensões entre um ávido e arrogante Poder Executivo e um lento e anquilosado Poder Judicial, cuja independência, já então, algumas personalidades teimavam em salvaguardar.
Esta obra fala-nos de hipocrisia, de ingratidão e de venalidade, mas também de integridade, solidariedade e amizade. Da grandeza e da miséria humana, cuja intemporalidade nos faz lembrar muitos dos escândalos e tristes realidades que ensombram o nosso presente. Diz-nos, também, da força e perseverança com que o personagem se redime, construindo, com fé e coragem, o seu futuro e o transforma num exemplo vivo de generosidade e de amor ao próximo, propondo, implicitamente, ao leitor, uma radical e inquietante reflexão existencial.
Uma história cheia de ação e de emoção, que retrata com detalhe e realismo a Lisboa dos anos 20, 30 e 40, os bastidores do poder político religioso e financeiro e as suas pequenas estórias, num país perdido à procura de rumo.