O que o leitor vai encontrar é um conjunto de textos que Martim Afonso de Redondo (MAR) escreveu no último ano de vida e intitulou O Fim do Mundo e Outras Lendas. À maneira de alguns escritores notáveis, nomeadamente brasileiros, se estivermos a pensar na língua portuguesa, MAR usou com maestria as possibilidades que uma obra póstuma proporciona.
Desde já, acrescento que julgo que usou sem abusar dessas possibilidades e construiu uma obra interessantíssima. de uma forma engenhosa e laboriosa - rima e é verdade -, o velho MAR articula seis peças aparentemente independentes, desde a introdução da obra intitulada Carta a J., ao epílogo Exígua Alma, passando por O Juízo Final, a Síndrome da Alma Desaparecida, o Eternozoide e o Meu Deus Africano.
A eternidade e o tempo atravessam os poemas a partir de uma pulsão vital impressionante de MAR. Alguns traços melancólicos são cortados, cerce com o seu humor sanguíneo, bloqueando qualquer inclinação para a nostalgia. O que impera sempre é o apetite, quase voraz, por coisas boas, desde a comida e os charutos até aos automóveis e ao sexo.