Nem sempre somos dos lugares onde nascemos. Por vezes, criamos raízes nos sítios que nos viram crescer, que nos acolheram e desses lugares fazemos casa, refúgio, princípio e fim. Eu próprio fiz isso. ¶ Leonel da Cunha diz-se ser um filho adotivo de Vendas Novas, mas amando esta terra como ele ama, certamente este local já o tem como seu descendente legítimo. Em mais uma das suas obras, ele relata o apego que tem a este lugar, sendo aquilo que ele melhor sabe ser - um exímio contador de estórias.
As memórias são a nossa maior herança. Numa época em que tudo muda a uma furiosa velocidade, são ainda muitos os "livros de capa preta" que nos salvam. Nesta sua obra, percorremos outros tempos que esta nossa Vendas Novas experimentou. Revisitamos tempos atrás através das suas palavras e recordamos estórias, vidas, momentos que estavam no passado das conversas longas de verão com as nossas avós.
[Leonel Carlos Piteira Dias (presidente da câmara municipal de vendas novas)]
(…)
Mas voltemos ao ponto onde estávamos. Enquanto o professor fitava, por detrás da secretária o neófito, a mãe do menino baixou-se para lhe dar um beijo e dizer-lhe ao ouvido: «porta-te bem meu filho». O Daniel (era este o nome do menino) sorriu; fez que sim com a cabeça, mas apertou os lábios, reprimindo um soluço. Nos seus olhos bailavam duas lágrimas. E, quando a mãe virou as costas, fez menção de querer sair com ela.
Foi então que o velho professor saiu detrás da secretária e, afagando a cabeça do menino, lhe disse: «Não, o menino fica. Esta é a escola onde o menino vai aprender a ser homem».