Tu és alemão, eu sou francês, ou vice-versa. Três séculos de rivalidades, duas guerras mundiais, uma atrocidade inesquecível e - milagre! - cinquenta anos mais tarde os inimigos hereditários juram-se fidelidade. Para sempre! Prometem eles num dia de bom tempo. Quem sabe? Receiam eles à menor crise. Grande estreia: a paz no Reno.
Paradoxo supremo: as economias fundem-se, os transeuntes ignoram-se. Estranha reconciliação: quanto menos te conheço, mais gosto de ti? A guerra fria gelara a memória. Hoje, degelam as questões irritantes. Arrogância francesa? Ambições germânicas?
O passado está ultrapassado. O futuro continua por pensar, tão variáveis são as opiniões sobre o Bem e o Mal, consoante se vive a este ou a oeste do mesmo rio. Que há de comum entre um Alemão e um Francês?
Meditação a duas vozes, estas cartas tentam a conversão de uma relação exterior em experiência interior. Quando o Europeu dialoga consigo mesmo, não fala apenas de moeda, interpela os pensadores, os poetas, a História; interroga-se: a Europa ainda terá uma alma? A Europa será de novo uma ideia?