Bertrand.pt - O Aprendiz do Mundo e Outros Fantasmas

O Aprendiz do Mundo e Outros Fantasmas

de António Pedro Pita 

Editor: Pé de Página Editores
Edição ou reimpressão: março de 2007
12,11€
Esgotado ou não disponível.

TEXTO DE APRESENTAÇÃO (COIMBRA 22/2/2007)

O que torna especialmente vivo e aliciante o livro O Aprendiz do Mundo e Outros Fantasmas, de António Pedro Pita, são os vários níveis de leitura que ele nos propõe. Este livro começa por ser uma recolha de ensaios, e é nesse regime que nos interpela e solicita cada um dos textos grafados em letra redonda nele reunidos. São textos críticos sobre temáticas diversas, desde a imprensa clandestina até ao cinema de Manoel de Oliveira, passando por alguns autores e obras, e pelas questões da insularidade, dos limites da arte, da mediação artística, da crise das filosofias da História e das possibilidades de reelaboração doutrinária e de reorganização do campo comunista a partir da "clarificação dos passados que têm futuro", como se pode ler nas páginas dedicadas ao livro de João Amaral Rumo à Mudança. É escusado escamotear a dimensão circunstancial de alguns desses textos: são apresentações de livros, críticas de filmes, comunicações a encontros científicos, etc. Todos sabemos que a circunstância é muitas vezes o motor de arranque da escrita ensaística, e não parece haver mal nisso, do mesmo modo que parece legítimo reunir em volume textos produzidos em diferentes etapas dum percurso individual, num determinado momento desse percurso. Como diz com ironia Abel Barros Baptista, na "Advertência" da sua Coligação de Avulsos, a respeito do seu próprio livro, "os ensaios, como os partidos, coligam-se muito em função das circunstâncias". Acrescente-se que a dimensão circunstancial dos ensaios compilados em O Aprendiz do Mundo em nada lhes retira o brilho: são textos produzidos por um verdadeiro espírito ensaístico, ou seja, por um espírito crítico que nunca deixa de ter presente o carácter hipotético do pensamento e da interpretação, por uma operosidade intelectual que problematiza e experimenta, relaciona e descobre. "A nossa relação com o mundo ocorre sob mediações múltiplas", escreve António Pedro Pita num dos seus textos, e essas mediações são bem visíveis na sua escrita densa, fortemente alusiva, que a todo o momento põe à prova a competência do leitor e lhe pede cumplicidade na decifração de referências, imagens e conceitos. Basta olharmos para o título do volume para nos darmos conta dessa densidade alusiva, com a evocação mais ou menos consciente de títulos outros como O Aprendiz de Feiticeiro, de Carlos de Oliveira, e "Le cinéma et ses fantômes", título de uma entrevista de Jacques Derrida. Poderia continuar a exemplificar, já que os ensaios de António Pedro Pita a cada passo convocam esse exercício de agilidade e ajustamento por parte de quem os lê; mas o que importa é salientar que de escolhas, de encontros fecundos e de muitos livros ("anos e anos de cultura...") é feito este livro, escrito por fragmentos, tal como se vive.

No seu todo, porém, o conjunto de textos que O Aprendiz do Mundo e Outros Fantasmas reúne propõe-nos um modo diverso de leitura. Creio que quando um autor pede a determinada pessoa que apresente publicamente o seu livro, de certo modo está a escolher um certo modo de percepção desse livro. Sou leitora assídua de diários e autobiografias, e tenho escrito também assiduamente sobre a literatura do ‘eu’: foi certamente nessa idiossincrasia que António Pedro Pita pensou quando me convidou para apresentar o seu livro. O que o autor d’O Aprendiz do Mundo e Outros Fantasmas desejou foi que alguém sinalizasse uma possibilidade segunda de leitura, uma leitura do seu livro como itinerário pessoal. E, de facto, a este livro se poderia aplicar a recomendação do escritor norte-americano William Styron, "I think that it will be seen that this is a very personal book", na exacta medida em que documenta um percurso pessoal, afectivo e político, com as suas vicissitudes, as suas dúvidas e os seus anseios. Foi nesse sentido que António Pedro Pita sabiamente o preparou para publicação, rasurando os dados referenciais respeitantes à data, circunstância e proveniência de cada texto, e intercalando no conjunto alguns entretextos grafados em itálico, pequenas ficções que veladamente estabelecem nexos e continuidades. Desse modo, o conjunto das várias peças ensaísticas dá-se a ler como um macrotexto, onde se torna evidente um núcleo de preocupações intelectuais e de afectos, e onde um ‘eu’ se presentifica. "A meu ver não é uma colectânea de ensaios nem muito menos um ensaio; a menos que o ensaiado fosse eu próprio", dizia-me António Pedro Pita num e-mail recente. E de certa maneira é um sujeito que a si mesmo se problematiza ao organizar esta recolha. Glosados sob forma ensaística, os afectos e preocupações que o livro documenta são em última instância redutíveis à fórmula breve "gosto de", fórmula radical e despudorada que alguns autobiógrafos, por exemplo Marcelo Duarte Mathias no seu livrinho Lembrar de Raízes, tanto gostam de usar. Por interpostos autores e por interpostas obras, António Pedro Pita fala de si, dos seus campos de interesse, das suas mitologias pessoais, das suas crenças e descrenças, das suas leituras, dos corredores da sua intimidade, em suma, daquilo que Barthes chama, em Roland Barthes par Roland Barthes, "les retentissements", isto é, as ressonâncias, tudo aquilo que faz uma vida, se sedimenta na memória e compõe uma identidade: amores, amizades, viagens, medos, alegrias, indignações, tristezas, estudos, encontros e desencontros.
Encontros: um itinerário pessoal é feito em grande parte dessas casualidades fecundas, e por duas vezes aparecem neste livro alusões ao clinamen, tal como o descreveu a física de Epicuro. O filósofo grego, nascido em Samos em 341 a.C., retoma a teoria atomista de Demócrito, acrescentando-lhe contudo a ideia de um desvio casual do movimento dos átomos, que determina colisões a partir das quais se formam os corpos. Na verdade, o termo clinamen ("inclinação", do latim clino) só aparece em Lucrécio, no seu De Natura Rerum, mas é lícito supor que se reporta à doutrina epicurista, dada a forma como Lucrécio assimila, elogia e divulga os ensinamentos do mestre. O clinamen é descrito no livro segundo de De Natura Rerum como um desvio excepcional e imprevisível das partículas, na sua queda em linha recta através do espaço:
"Os átomos descem em linha recta no vazio, levados pelo próprio peso; mas às vezes, não sabemos onde nem quando, desviam-se um pouco da vertical, apenas o suficiente para que possamos falar de inclinação.
Sem esse desvio, todos cairiam sempre, como gotas de chuva, através do vazio imenso; e não haveria encontros nem choques, nem a natureza teria podido criar nada".
Como se sabe, esta noção da física epicurista encontrou outras valências no pensamento ocidental contemporâneo: foi recuperada por Alfred Jarry no seu romance Gestes et opinions du docteur Faustroll (1911) e a patafísica parte igualmente dela para realçar essa flexão fundamental, esse súbito desvio, essa "aberração infinitesimal" que é o princípio de cada realidade e de cada pensamento, abrindo possibilidades para um mundo novo e para um novo conhecimento.
É disso mesmo que nos fala a pequena ficção intercalar da página 39 do livro de António Pedro Pita:
"Há um mapa das estrelas. Há um mapa dos encontros? Como é que um corpo chega a outro corpo - como é que chega a um corpo que se adeque ao seu?
Um encontro é inantecipável. Antes do encontro, dois corpos desconhecem a sua adequação. O movimento que leva um corpo ao encontro de outro corpo ocorre sempre numa região obscura do inesperado, onde profundidades e distâncias se cruzam até estabelecer no presente a evidência da sua própria adequação. O encontro só é o limiar de um futuro se for o (hipotético, improvável) regresso de uma distância imensa: quem de tão longe alguma vez regressa?"

Assim se sugere a íntima ressonância de acontecimentos que ao longo do tempo foram deixando as suas marcas, a força de encontros e embates casuais que revelaram mútuas adequações e abriram um novo mundo de possibilidades criativas. Ao mesmo tempo que tem uma funcionalidade justificativa, reflectindo sobre as imprevisíveis razões duma trajectória pessoal, esta pequena ficção restitui ao conjunto dos textos uma temporalidade que a sua publicação em livro, tal como atrás a descrevi, lhe retirava. De facto, se por um lado a supressão de coordenadas temporais provoca no livro de António Pedro Pita um efeito de erosão ou de apagamento selectivo, que resume o vivido (ou uma parcela do vivido) a um certo número de biografemas fundadores dum ‘eu’, por outro lado esses biografemas são justificados em função de acontecimentos diferenciadores ("encontros") situáveis e situados numa temporalidade histórica. Fica, pois, cada texto ensaístico desligado da circunstância em que foi escrito; mas não fica o autor desligado da sua própria circunstância, já que o livro é pretexto para um balanço de vida, para um catártico ajuste de contas com o passado. No breve texto que encerra o volume, António Pedro Pita toma o voo das aves como metáfora da "nossa condição irrealizada, enigmaticamente transfigurada em misteriosa aspiração" (p. 89), e na sabedoria desse voo sem bússolas ou mapas procura o paradigma dum acerto do seu próprio percurso: "Como se, para além das aves, desencontrados do voo, a ele quiséssemos voltar sempre que, na ponta mais fria ou mais só ou mais veemente das libertações, nos despedíssemos dos passados que não queremos: boa noite, eu vou com as aves". Terminando assim com um verso de Eugénio de Andrade, implicitamente separa, nos múltiplos passados que constituem o seu ser, os passados com futuro e os passados indesejados dos quais se despede e se liberta.
Estamos, pois, perante um itinerário pessoal, com as suas determinações espacio-temporais, e perante o retrato dum ‘eu’, com os seus lastros afectivos e íntimos, os seus fantasmas, as suas metamorfoses, a sua vontade de ir com as aves. Mas O Aprendiz do Mundo e Outros Fantasmas propõe-nos ainda um terceiro nível de leitura, não menos sugestivo. Esse terceiro nível de leitura é instaurado por dois ensaios (aliás, dois dos meus ensaios preferidos) que de certo modo funcionam como mise en abîme da própria indagação autobiográfica. Intitulam-se esses textos, respectivamente, "Interior" e "A Descoberta das Ilhas". O primeiro ocupa-se da noção de clandestinidade e toma como ponto de partida um quadro de Mário Dionísio que, antes de se chamar "reunião clandestina", se chamou durante muitos anos "Interior". Nos primeiros parágrafos tece reflexões sobre a possibilidade de figuração da interioridade que se ajustam perfeitamente à questão da auto-representação: "O que ocorre num interior, para quem está fora, não é visível. A figuração do ‘interior’ implica abertura, exteriorização, desvelação", lemos na página 7, e no final da leitura de O Aprendiz do Mundo e Outros Fantasmas percebemos retrospectivamente como o livro corresponde exactamente a esse exercício de exteriorização ou desvelamento. Também o ensaio sobre a ilha pode ser lido como mise en abîme do percurso autobiográfico configurado no livro, e em particular da construção de uma espécie de ontologia insular que serve de enquadramento a um ‘eu’ que aos poucos se distanciou de outros quadros de referência. Esse texto questiona a hipótese, que o Robinson Crusoe de Defoe corporiza, de cada homem, "em qualquer momento e em quaisquer circunstâncias", poder "refazer todas as condições da sua existência e extrair do seu poder demiúrgico um presente e um futuro" (p. 41) e confronta a modernidade optimista dessa ficção com outras estratificações da imagem da ilha, construindo projecções metafóricas para uso pessoal. Estes dois ensaios podem, assim, servir de "abre-te Sésamo" a uma leitura especular em que o texto já não reflecte apenas o percurso intelectual e afectivo dum ‘eu’, mas se reflecte a si mesmo enquanto texto, enquanto projecto de escrita em que alguém se perscruta ou, como diz António Pedro Pita, se ensaia a si mesmo.

Clara Rocha

O Aprendiz do Mundo e Outros Fantasmas
ISBN: 9789896140413 Ano de edição ou reimpressão: Editor: Pé de Página Editores Idioma: Português Dimensões: 153 x 209 x 20 mm Encadernação: Capa mole Páginas: 96 Tipo de Produto: Livro Classificação Temática: Livros  >  Livros em Português  >  Literatura  >  Ensaios

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