Em Mundo Atravessado (o seu segundo livro depois de A Poesia dos Brutos de 2024), Sofia Sampaio convida-nos a observar o mundo, movidos pelos versos de Herberto Helder: «Cantar o nosso próprio dardo atirado / ao bicho que atravessa o mundo».
Mundo Atravessado recusa a literacia da beleza e propõe-se olhar para as coisas feias: para os moradores de rua que apodrecem no chão como frutos fora de época, para a hipocrisia das elites que recolhem os dejectos de caniches com mais zelo do que olham para o seu outro, e para a boa educação que nos silencia e imobiliza. Mas há também, nestas páginas, um mundo que se faz corpo e caminho. Entre o abraço estreito e o santuário do coito, a poesia de Sofia Sampaio diz o desejo e o desamor. São retratos de corpo inteiro de mulher que não teme usar a sua voz na busca de um lugar nesse mundo.
Mundo Atravessado é um livro «cheio de arestas e ângulos / que picam os dedos / onde cada linha / se interrompe por outra / e onde o infinito / existe apenas / como grito».