Ao longo dos séculos, as mulheres moraram nas entrelinhas dos textos dos homens. Eram mães, as filhas, os objectos de desejo, de amor ou de ódio destes, mas nunca seres dotados de vida autónoma, com projectos, problemas e esperanças próprios.
Eles partiam para a guerra e — intuíamos nós — elas ficavam em casa, contentes por parirem os filhos deles, por tricotarem as lãs que, depois, as aqueceriam, por trazerem o cinto de castidade que lhes deixava o ânimo sossegado para missões mais importantes.
A História de Portugal (como a de outros países europeus) foi, pois, até há bem pouco tempo, uma longa (e frequentemente fastidiosa) sucessão de varões nobilitadíssimos. As mulheres, quando existiam, ora ali estavam porque transformavam o pão em rosas, ora porque, pelo contrário, tinham um pacto subterrâneo com o demónio. Eram seres de excepção, porque as mulheres ditas normais não passavam à História.
Este livro aparece na sequência de uma revolução historiográfica que, mesmo sem queimar soutiens ou outros objectos íntimos na via pública, vem já dando frutos saborosos.
Em Divas, Santas e Demónios, estão em foco cento e vinte portuguesas que, por motivos vários (nem sempre os melhores), se notabilizaram no campo a que se dedicaram — a política, as artes plásticas, o teatro, a literatura, o amor, etc.
Com rigor histórico e, sempre que possível, com algum humor, traça-se aqui esses cento e vinte percursos tão diferentes entre si. Para que este seja o livro de muito mais gente do que parece.