(…) É certo que o humor português, quase sempre "revisteiro" ou "brejeiro", está a anos-luz da inteligência e da subtileza do "humor britânico", mas cada povo sabe de si, regendo-se pelos seus próprios princípios e valores. O humor que em espaço luso temos é aquele que soubemos criar ao longo dos séculos.
Em matéria de produção literária produzida nos Açores não temos propriamente livros humorísticos, mas, sim, poemas, contos, crónicas e outras narrativas com momentos de humor, sátira, ironia, chiste… Atentos ao real e ao risível das coisas, os autores aqui antologiados sabem que é a brincar que se castigam os (maus) costumes, na conceção horaciana de prodesse et delectare.
Mas há também aqui uma conceção de raiz barthesiana: le plaisir du texte, que sou tentado a traduzir por deleite verbal. Tal deleite verbal é, no contexto da tradição humorística portuguesa, resultado do trocadilho, da chalaça, da chacota, do lapsus linguae, do burlesco e da cisão de sentidos. Ontem como hoje temos autores que souberam e sabem pôr em causa o signo linguístico, brincando com o sintagma e com o paradigma, com a sintaxe e com a semântica.
Nesta matéria, nos Açores soubemos reproduzir, adaptar e (re)criar o que vinha de fora, num fenómeno de claro mimetismo cultural. Na pesquisa que fiz para este projeto editorial, encontrei, sobretudo, muita qualidade de escrita. (…)
Victor Rui Dores
(Excerto do Prefácio)