Excerto do texto de apresentação (dia 29 de Março, na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa)
Escreve o António, no poema da página 21:
«Resta-me aprender o silêncio
Não se nomeia o que é importante»
Creio bem que o «silêncio» a que o autor alude não deve tomado em sentido literal. Ele é antes sinónimo de um movimento de recolhimento produtivo, de um caminho para a palavra, de um abeirar os seus silêncios e os seus ecos, da entrega a uma condição de viandante, ou seja, daquele faz o caminho caminhando, que se busca no próprio acto de procurar, que se entrega à palavra não para a utilizar mas para a escutar.
Abeirar desta forma o silêncio é habitar poeticamente o mundo. E este livro, cujo título «Fragmentos», em junção com a bússola da capa, igualmente fragmentada, poderá ser interpretado como uma alusão à condição pós-moderna em que o fim das grandes narrativas deram lugar aos jogos que procuram organizar sentidos a partir de fragmentos, é também um mapa de inscrições existenciais. Assim, da aprendizagem do silêncio, surge mais este livro de poesia.
É já o terceiro livro de poesia do autor — depois de «Quatro águas» (de 2004) e de «Pegadas» (de 2006).
Cada livro de um autor é também uma inscrição do seu percurso.
Por vezes a publicação de um livro corresponde, para o seu autor, ao virar de uma página de aprendizagem, à despedida de mais um degrau que fez parte do seu caminho.
Parece-me que, neste novo livro, a identidade da escrita de António Bento adensa-se no despojamento que busca o simples. Se no livro anterior, «Pegadas», a metáfora do caminho estava já patente no próprio título, na presente obra o espírito de demanda prossegue, tendo no seu horizonte uma sabedoria de vida roubada à velocidade dos dias que nos estilhaça em mil fragmentos avulsos.
O autor convoca nestes poemas uma serenidade que rima com a frontalidade de um olhar que quer pousar no sentido e mapear uma escala de importâncias que resiste à voracidade dos dias. É por isso que a dimensão de ser pessoa é, aqui, solidária de um tempo de recolhimento.
Todo o livro exala um perfume, faz correr uma seiva, cria uma ambiência, consagra um lugar simultaneamente físico — próprio de ser objecto — e um lugar de identidade e de memória espiritual.
É por isso dupla a partilha que ele propõe: por um lado, nele está espelhada uma singularidade, uma luta corpo a corpo quanto à concentrada escolha das palavras, quanto à forma de as encostar umas às outras, quanto ao rigor dessubjectivante que prepara a autonomia do poema para além de todas as intencionalidades do autor, quanto à melodia que as palavras entoam, quanto à disposição em que são colocadas na página.
Mas também, por outro lado, partilha também quanto à secreta comunidade de um ver para além do visível, de um sentir para além dos sentires, de um viver para além das vivências e da vidinha.
Toda a escrita literária é ensaística e este livro de poesia de António Bento não escapa a essa dimensão. Pelo contrário, ela revela-se como um espaço de ensaio por excelência, como um movimento em que a existência é vista como um enigma situado. O corpo instala-nos no ciclo do tempo, mas o tempo do ciclo, que sentido tem? Que sentido dar-lhe?
Porque, lembra o poeta, «temos o terrível poder de dizer não» (p. 42)
É certo que vivemos cada vez mais a recato da questão do sentido enquanto dimensão fundamental de confronto com o enigma existencial.
Organizamos a nossa existência em torno de objectivos, ambições, aspirações e como que nos funcionalizamos perante eles. Olhamos para o que é da nossa responsabilidade e do nosso cumprimento e apagamos o resto que não podemos quantificar, objectivar, contabilizar. Raramente pensamos na morte a não ser como imagem que nos atormenta fantasmagoricamente.
Pergunta o poeta:
«Choro a tua morte
ou
a minha existência?».
(p. 9)
E reduzimo-nos a um presente que queremos eterno, um sempre-já eterno, que não ousamos, a maior parte das vezes, pensar como sendo apenas um dos momentos do ciclo finito que somos.
«A única idade
da morte
a idade secreta
incerta».
(p. 43)
A poesia de António Bento representa uma ruptura com a funcionalização da vida. Como poeta o autor fala a partir de interrogações e não de objectivos, fala a partir de ingenuidades e não a partir de conhecimentos.
Ousa vaguear no difuso, como um inventor que quer encontrar meios de apalpar a realidade antes das formatações que dela nos são dadas para o dia-a-dia. Neste sentido, também, ousa afrontar a própria vacuidade do quotidiano em que, para glosar um poema de Chico Buarque, o sangue erra de veia e se perde.
Apesar das eventuais conotações pós-modernas do título deste livro, o ar que nele respiramos nada tem de pós-moderno. O simples, a raiz, a intensidade, o retardamento dos olhares, o despojamento das máscaras que quotidianamente nos conferem ou retiram estatutos e poderes é aqui praticado sem medo de que nos possamos perder, de que não consigamos encontrar o caminho, de que não consigamos voltar. O caminho faz-se caminhando, o caminho é a caminhada, o destino são os encontros e os desencontros do caminhar nos caminhos. Há pois uma serenidade no caminhar poético de António Bento. Assim escreve, na página 41:
«O caminho escolhe-nos
ou escolhemos o caminho?
Deixa que a roda desse enigma
rode de dia
rode de noite.
Sabes
todos os pássaros
descobrem o sul.
E todas as formigas trabalham para os receber».
Para concluir, direi que os temas maiores deste livro de poesia são a busca, a demanda, o sentido, o encontro e a relação partilhada numa atopia que, mais do que inventar um lugar outro, representa um colocar-se ao lado e um caminhar com. Uma espécie de ponto igualitário em que a nudez é sem vergonha e a dignidade é o cuidado com esta pré-ocupação que nos faz ser antes de qualquer funcionalização. Neste sentido esta atopia é também o não lugar em que a liberdade transforma os gestos de lucidez em actos de resistência.
Rui Grácio