A U. Porto editorial acaba de editar o livro "Experiências de Consumo - Estudos de caso
no interior da Classe Média", da autoria de Alice Duarte. A obra pretende contribuir para
uma compreensão abrangente dos fundamentos familiares e pessoais da procura do
consumo, elucidando sobre a sua utilização enquanto meio de expressão e comunicação
dos indivíduos. O processo de consumo é analisado enquanto prática cultural capaz de
converter as mercadorias produzidas em massa em bens singulares detentores de
propriedades significativas particulares.
A investigação concretizou-se sobre um universo de estudo composto por 24 famílias,
pertencentes à classe média e residentes na cidade do Porto e áreas adjacentes num raio
de 50 quilómetros, recrutadas a partir de uma abordagem acidental aos visitantes de um
dos principais centros comerciais do Grande Porto. Através da realização de entrevistas
em profundidade complementadas com práticas etnográficas, a autora procurou
compreender as apropriações de significado efectivadas pelos sujeitos de investigação.
Os dois primeiros capítulos fornecem o enquadramento conceptual e metodológico da
pesquisa realizada e fazem a apresentação dos 24 agregados familiares que constituem o
universo empírico. É no terceiro capítulo que aparecem ilustradas as efectivas ligações
entre as pessoas da pesquisa e os seus itens de consumo, relacionando-se as práticas de
consumo que os consumidores-informantes levam a cabo com as construções de sentido
que elaboram sobre si e sobre o mundo cultural, moral e afectivo em que se movem. «A
adesão aos saldos e à contrafacção» como «meios de expressão de uma identidade
radical de esquerda e da possibilidade de "dar algumas bicadas no sistema"», a
preferência pelo consumo de artigos que traduzam um aspecto geral despojado ou certas
escolhas ao nível de consumo do lazer e cultura «como afirmação de uma orientação
político-ideológica de esquerda» são algumas das associações percebidas.
A autora conclui pelo «carácter privado e ou doméstico das apropriações criativas
levadas a cabo pelos informantes e agregados considerados» e pela «imensa pluralidade
de subjectividades presentes e actuantes em tal processo…», e não de um processo de
compra de uma identidade "pronta a usar".
Alice Duarte (Porto, 1961) é licenciada, mestre e doutorada em Antropologia Social e
Cultural, respectivamente pela Universidade Nova de Lisboa, Universidade do Minho e
Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE). É docente da
Faculdade de Letras da Universidade do Porto desde 1990, onde lecciona nas áreas da
Museologia, da Etnografia e Metodologias de Investigação e das Sociedades
Contemporâneas e Globalização.