«Num arco de contos entrelaçados, a narrativa percorre lugares argentinos encostados à Cordilheira dos Andes, onde a vastidão da paisagem rural molda destinos. As histórias cruzam-se como planos de um mesmo filme e as personagens afastam-se e regressam, carregando memórias comuns.
A infância e a adolescência surgem como temas fundadores — feitos de jogos e em permanente contraste com a cidade, presença distante e quase mítica, ora promessa de fuga, ora ameaça de desenraizamento. A amizade e o amor nascem em gestos mínimos, testados pela dureza do quotidiano, pelo alcoolismo que corrói a racionalidade e pela herança familiar que pesa como a montanha no horizonte.
O valor da família atravessa cada conto, onde emergem desejos interditos, ecos do complexo de Édipo, tratados com humanidade. O animal consagrado da imaginação argentina surge como símbolo recorrente — força, sacrifício e pertença — espelhando a relação visceral entre o homem, a terra e a tradição, bem como a arte (escultura e pintura) e a mitologia.
Entre a lucidez e a loucura, as personagens enfrentam a vida, a morte, e o sofrimento colectivo da memória das Mães da Praça de Maio, cujo luto silencioso projecta uma sombra ética sobre as várias gerações.
Com uma escrita de cadência cinematográfica, os contos descrevem o quotidiano em planos contemplativos, onde o vento, a poeira e o silêncio dizem tanto quanto os diálogos. O resultado é um mosaico humano intenso, em que o íntimo das personagens se cruza numa mesma paisagem emocional.»
Alice Caetano