Contado com um humor e sensibilidade únicos nas letras africanas contemporâneas, o romance constrói-se em torno de duas histórias paralelas e relata o trajecto, até simbólico, de um homem que parte de uma pequena aldeia sudanesa para obter uma educação no Reino Unido e o seu misterioso regresso após um processo de homicídio e violação. No período pós-colonial dois homens sudaneses, o narrador anónimo e Mustafa, depois de encetarem um percurso individual idêntico que consiste na emigração para a Inglaterra e no regresso às origens - o Sudão - interagem e redescobrem-se. A experiência no estrangeiro de Mustafa Sa’eed foi totalmente distinta da do narrador mas é com este que Mustafa partilha as suas histórias, que o narrador nos transmite incorporando as suas próprias emoções.
Nas narrativas de Mustafa manifesta-se o paradoxo do homem negro exoticizado. Mustafa valeu-se da sua inteligência e da sua capacidade de estudo para obter uma bolsa de estudo em Inglaterra. Uma vez ali, dá-se conta do quanto pode explorar o estereótipo que se lhe aplica: exótico, hiper-sexual, proveniente de um continente obscuro que promete sensações inusitadas. Seduz as mulheres inglesas, divertindo-se à base desse estereótipo. Para elas a conquista pressupõe o conhecimento do prazer proibido, para ele a sedução supõe subjugar até à destruição e desumanizar a mulher branca. Até que os papéis se invertem e uma mulher o desumaniza.
Só quando Mustafa regressa ao seu país é que se dá conta do quanto desperdiçou, do mal que fez aos outros e também a si próprio. O seu relato envenena o narrador que, como o próprio Mustafa, se submerge no Nilo para desaparecer. Mas, no último momento decide viver e contar-nos a história.
São estes dois fios narrativos que oferecem uma valiosa oportunidade de conhecimento e reflexão. O enigma de Mustafa atrai, intriga e, como ao narrador, por vezes desespera mas nunca cansa.