Numa aparente dimensão espectral, ora explorando as possibilidades imagísticas do símbolo, ora evocando memórias, referências eruditas e visões futuristas, as imagens de Emília Nadal mostram-nos o poder criador da própria pintura. O rigor construtivo, manifesto em composições e decomposições que denunciam uma profunda pesquisa em torno do valor plástico e poético dos elementos pictóricos, associa-se ao poder de traduzir, com notável sensibilidade, um singular universo figurativo, onde por vezes emerge, como sucede em paisagens oblíquas, uma sensibilidade abstracta.
Reflectindo uma síntese do percurso da artista, a presente exposição permite acompanhar os diversos meios, temáticas, linguagens e técnicas que sucessivamente foi experimentando. Assim, o recolhimento intimista, as sugestões metafóricas e cósmicas presentes em séries de pinturas e gravuras que reflectem a erudição e a extraordinária delicadeza da artista prolongam-se, aqui, em abordagens de teor satírico, numa aproximação crítica e irónica à sociedade de consumo ou à circulação de imagens icónicas. Aparentemente estandardizados e com slogans que remetem para um uso corrente, esses objectos revelam distintas solicitações e possibilidades da artista.
A obra de Emília Nadal obriga-nos a reflectir sobre nós próprios, colocando-nos perante as grandes questões da Humanidade, numa narrativa que, de imediato, descoincide com o nosso tempo, mas que evoca todos os tempos e muitos lugares.