Não é vulgar que um livro de um poeta brasileiro conheça a sua primeira edição deste lado do Atlântico, mas é esse, o caso de Desassombro, a terceira recolha de poemas de Eucanaã Ferraz. Um dos elementos fortes desta escrita é o constante questionamento do acto poético. O fio de luz que ilumina o mundo de Ferraz é uma tesoura que tudo recorta com precisão e várias outras lâminas são, ao longo de Desassombro, convocadas. Num poema de Os Dias podemos ler: "Uma espada? Uma foice? Que dentes, / rapina, navalha, a ponto de arrancar / a face esculpida?". E, noutro admirável poema da mesma parte do livro, os gritos dos morcegos em torno do edifício são comparados a facas: "Gritam como facas / apressadas, afiadas / à roda do edifício."