Crianças é uma obra poética que apela à profunda reflexão. A preocupação social da autora Rosa Odete focaliza-se na capacitação infantil de um prisma não apenas contemplativo, elogioso, mas também pedagógico e educativo.
A infância, vista como um paraíso perdido e, acima de tudo, como uma dimensão de pureza nem sempre compreendida pelos adultos, perpassa por todo o livro, qual trave-mestra que vai sustentando a crítica à sociedade do desperdício no poema A Fome dos Outros, a importância lúdico-didática em Menino da Bola, ou a tocante rogativa à responsabilidade dos maiores de idade em Aos Crescidos.
Vislumbra-se em Crianças uma defesa intransigente da preservação da Natureza, esmiuçando a beleza que o meio ambiente nos pode oferecer se for devidamente resguardado. Sobressaem nos poemas de Rosa Odete vários aspetos filosófico-morais de quilate greco-romano, sugerindo linhas de conduta superior imbuídas de valores irrepreensíveis. Deste modo, poemas como Esforço e Perdão destilam toda uma sapiência verdadeiramente coalescida em máximas sincréticas, certamente resultado de uma busca continuada, incansável, de preceitos sentenciosos servindo como normas de vida.
Por tudo isto, e através dos inumeráveis ângulos pelos quais podemos igualmente fruir de Crianças, seja a transitoriedade da vida/morte, o enaltecimento da amizade, ou a fertilidade da dicotomia aprendizagem/ensinamento, estamos sem dúvida perante uma obra de invulgar qualidade ética e estética, uma vez que, independentemente da temática, a arte de Rosa Odete logra o pequeno milagre de sintetizar uma profundidade assinalável num formato simples e transparente.