No regime derrubado em 1974, o governo tinha o poder de excluir os candidatos às legislativas a que atribuísse "ideias contrárias aos princípios fundamentais da ordem estabelecida". Salazar não o utilizou muitas vezes mas Marcelo Caetano retocou a lei a curtas semanas da campanha de 1969 e deu-lhe uso em quatro círculos.
Uma nota oficiosa emanada do Ministério do Interior informava que se tratava de agentes de subversão que recorriam a "processos contrários aos mais elementares princípios de disciplina por que devem reger-se todas as sociedades organizadas".
Coube ao autor essa experiência sui generis no círculo de Leiria. Aí vivia também quando essa mesma "ordem estabelecida" justificou a decisão governamental, em 1973, de o submeter, no âmbito militar, a "regime disciplinar especial".
Os 50 anos do 25 de Abril constituíram o pretexto para revisitar esses e vários outros episódios desses anos leirienses numa série de crónicas, aqui reunidas, versando aspectos menos conhecidos quer de práticas usadas pela ditadura, em particular no período marcelista, quer das iniciativas e actividades pró-democracia que se desenrolavam no terreno. Na perspectiva do autor, elas constituíram um contributo para a caracterização democrática da revolução portuguesa.