Em homenagem simbólica a Einstein, que em 1905 publica o revolucionário estudo sobre a relatividade restrita, e a Heisenberg, no célebre "Uncertainty Paper" de 1927, os ensaios de «Considerações Incertas» são por definição textos de índole "incerta" e "indeterminada" quanto à natureza dos conteúdos que veiculam, no sentido amplo que os opõe aos dogmatismos das certezas e das verdades absolutas. São leituras sempre aproximadas e em aberto de problemas de linguagem, literatura e pintura, sobre os eixos oscilantes da poética, da retórica e da estética ocidentais, ao longo de mais de vinte e cinco séculos de história.
Na linha de continuidades fragmentárias que une os pré-socráticos a Platão e a Aristóteles, que perpassa por Ramon Llull e, num salto abissal, remete para José Marinho, Derrida e De Man, e ainda para as eternas cumplicidades da literatura, do teatro e da pintura, vemos como a incerteza, essa indefinível negatividade alojada nas entrelinhas do devir, que assola o corpo e a alma dos poetas e dos artistas, que rói o espírito do estudioso na procura e definição do seu objecto, na escolha criteriosa da metalinguagem, é essencialmente afim à que se vai fiando e tecendo ao longo das páginas deste livro, e será também afim à que Heisenberg, a despeito do determinismo de alguma ciência vigente, descobriu como inevitável princípio do mundo.