Juntamente com Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, a Carta sobre
a Fortuna veicula as reflexões filosóficas de Matias Aires, pensador
luso-brasileiro de setecentos, a quem a estada em França, os contactos
que aí estabeleceu e os estudos na Academia Real de Ciências de
Paris converteram num dos principais iluministas portugueses e que
inexplicavelmente permaneceu esquecido em Portugal durante todo o
século XIX e grande parte do século XX. A Carta sobre a Fortuna não
pode ser dissociada da experiência pessoal de Matias Aires, que assistiu à
árdua e humilhante tentativa por parte do pai de abrir caminho dentro
da organização social existente que distinguia os que, apesar de toda
a sua opulência, não tinham sangue nobre. Este texto funciona, para
além de uma meditação filosófica que demonstra o carácter ilusório
da fortuna e refuta a procura de uma felicidade assente em atributos
exteriores e sociais, também como uma espécie de catarse de quem viveu
nesse engano uma boa parte da sua vida e está agora consciente que a
verdadeira felicidade é interior e espiritual.