Só a palavra, assusta. Mesmo que o cancro esteja no vizinho do lado. Mas
esse vizinho é sempre um amigo ou um familiar, pois não deve haver no
mundo quem não tenha alguém afetado por esta doença.
Ler este livro é, então, como uma peregrinação. Ao encontro desses outros
e de nós mesmos, de algumas respostas e conhecimentos que as diversas
ciências, e em particular a psicológica, nos dão sobre esta enfermidade
que tem uma alta incidência nos tempos que vivemos. O que é o cancro?
Como se manifesta? Que dores nos faz sofrer? O que contribui para o seu
aparecimento? O que facilita a cura?
A Doutora Sónia Remondes Costa escolheu investigar o cancro da mama,
e por via disso dá-nos a oportunidade de entrar no Reino do Feminino, e
mostra-nos como o órgão que a doença "escolhe" já pode indiciar inúmeros
significados, e como são diferentes os sofrimentos consoante a parte do
corpo que adoece. Mas como nos seres humanos não há corpo sem mente
(ou alma, ou psique, ou como quiserem), a autora defende, e bem, como a
psicologia tem, nesta área, inúmeros e promissores caminhos a desbravar:
porque o corpo adoece a alma, ou vice-versa; ou, talvez melhor, o corpo e a
alma adoecem sempre ao mesmo tempo, porque afinal são uma e só unidade.
Sei do enorme empenho, e saber, e motivação da autora por esta temática,
porque tenho acompanhado de perto o seu percurso. Em Portugal estamos
a dar os primeiros passos na Psico-Oncologia, e a Sónia Remondes Costa é
um dos membros pioneiros, e leciona na sua universidade (a Universidade
de Trás-os-Montes e Alto Douro), e com muito êxito, uma disciplina com
este nome, que é talvez a primeira e a única no sistema de ensino superior
público português.
Sobram, enfim, razões para recomendar a leitura desta obra, porque ela
contém a sabedoria da autora sobre esta temática, que lhe veio muito da
vasta experiência clínica, isto é, do que deu e recebeu das centenas de
mulheres com cancro da mama que soube escutar e acolher, em terapia
individual ou de grupo. E, ainda, este belo e tocante livro merece o nosso
colo porque nos alimenta a esperança de que esta peregrinação nos conduza
a um lugar onde o cancro possa ser compreendido e/ou curado. Otília Monteiro Fernandes (Posfácio)