Nuno Crespo: «A natureza cinematográfica do vosso trabalho é muito interessante. Há quem tenha dificuldade em chamar isso de cinema, talvez por causa da dimensão instalativa. Mas há muitos elementos do cinema — especialmente a autoridade. E, embora normalmente se associe autoridade a algo repressivo, no cinema há um momento inevitável de decisão. Existe um diretor, uma equipa e alguém precisa decidir.»
Nuno Crespo — Este livro não é antológico nem retrospectivo: a sua ambição está na exploração da metodologia que utilizam as vossas obras, bem como compreender a vossa dinâmica de trabalho e como se estrutura essa colaboração que já dura dez anos. Uma pergunta muito elementar, mas necessária quando olhamos para a vossa obra conjunta, é: o vosso trabalho é sobre o quê?
Bárbara Wagner — Quando nos apresentamos às pessoas com quem queremos colaborar, descrevemos nossa prática como uma pesquisa em cinema — uma mídia popular. Dizemos que fazemos filmes curtos porque nos interessa a música: a duração deles está ligada ao tempo das canções ou das performances em palco.
Nuno Crespo — Mas essa ainda me parece uma resposta formal. Deixem-me reformular: o que une esses filmes e essa prática?
Benjamin de Burca — A pergunta é simples, mas a resposta é complexa. Como os nossos trabalhos — que são muito distintos — se conectam? Por que os fazemos? Parte da resposta está no fato de reunirmos artistas de contextos diversos para chegarmos à ideia de quem somos — entre quem está vendo e quem está sendo retratado.
Há mais de uma década, Bárbara Wagner e Benjamin de Burca desenvolvem uma prática colaborativa entre o cinema, as artes visuais e a performance. Seus vídeos e instalações são realizados em diálogo com artistas e coletivos diversos, combinando estratégias documentais a camadas narrativas de fantasia e alegoria. A partir de processos de escuta e convivência, direção, roteiro, figurino e trilha sonora são concebidos coletivamente com os participantes de cada obra. Essa metodologia horizontal tensiona modos de representação contemporâneos, revelando fricções entre práticas culturais populares e estruturas hegemônicas de visibilidade. Seus trabalhos propõem uma reflexão crítica sobre o gesto performativo e seus desdobramentos sociais, estéticos e políticos.