As cidades perseguem uma igualdade asséptica e desalmada, enquanto a maior beleza esconde-se no que é vivo, diverso e único.
A Voz de Lisboa com Paris é um livro que fala da transmutação da cidade de Lisboa em um ambiente cosmopolita. Belo, como qualquer outro do chamado mundo europeu, mas que termina por perder as suas peculiaridades, as suas
tradições mais antigas, em favor de um turismo de predadores, de um futuro nem sempre gentil.
A prosa de Miguel Leonardo confronta-nos subtilmente com a ânsia de se globalizar, de se tornar uníssono em vitrines e espaços públicos, de trazer uma assepsia às ruas e aos cidadãos, para que eles deixem de perceber a si. É sobre o passado e as imposições cibernéticas do futuro, que dobra os joelhos de cada lisboeta, de cada café, de cada esplanada tipicamente verde e vermelha. Miguel fala-nos de quando "existia a vontade de querer mudar o mundo", e depara-se com o inevitável: o tecnicismo que transforma em digitais o que antes tinha a liberdade de viver em carne e osso.
Em sua estreia literária, o autor fala da sobrevivência, de enfrentar o percurso inexorável e imposto a todos, de apreciar as belezas do caminho e tentar chegar com vida nisto que se tornou Lisboa: um cartão postal decorado e unívoco, igual a qualquer outro lugar do mundo.
Uma leitura que, ao mesmo tempo questionadora e revolucionária, lembra-nos da importância de preservar a alma e a personalidade de si mesmo e da própria aldeia, uma ode à beleza das diferenças entre humanos e suas cidades.