A Rua do Paraíso era apenas uma zona da cidade: acontecimentos semelhantes repetiam-se noutros lugares. O que ali
fascinava era o entrelaçamento,
a profusão; e as gentes, possuidoras de saberes tranquilos, que teciam as suas vidas com
fios de muitas cores. Os que talvez não tivessem descoberto o sentido da sua vida mas teriam herdado esse conhecimento
sem saberem de quem ou de onde; aqueles, enfim, que considerei singulares,
inesquecíveis, símbolos para mim da
possibilidade de bom relacionamento
entre pessoas muito diferentes... O seu comportamento oscilava em permanência
entre a zanga de arrepelar de cabelos e a solicitude para com os vizinhos, mas nenhum conflito era definitivo e insolúvel. O
que me leva a pensar que se pode viver no mesmo mundo de muito diversas maneiras e que é mais que claro que não
possuímos nenhuma faculdade inata que nos permita distinguir o verdadeiro do falso.
São estas memórias e outras que neste livro se revisitam, reflexão sobre o passado que não deve sobrepor-se ao presente,
mas que é exemplar, e que permite a esperança de que seja ainda possível evitar em cada um de nós o desejo
fundamentalista de impor aos outros a nossa verdade. Por muito que se nos imponham juízos que não pomos nunca em
dúvida, por muito distintas que se nos apresentem as ideias, elas podem não ser claras nem evidentes nem verdadeiras para
outras pessoas.