"Espero pelo dia - mesmo na cova o espero - em que acabe a exploração do homem pelo homem".
Raul Brandão tinha apenas um grande "sonho" e descreveu-o assim nas suas Memórias, o terceiro volume onde faz o Balanço à vida.
Pede também mais justiça, mais pão e mais reflexão.
150 anos após o seu nascimento, o seu sonho, o seu desejo, continua tão actual como nos séculos passados.
O escritor "assombrado pela ideia da morte" tinha na justiça o seu sonho, fruto da observação da vida dos pobres, espelhando-o em toda a sua obra, tendo-se tornando num grande intérprete da vida íntima e da trágica condição portuguesa: "A vida antiga tinha raízes, talvez a vida futura as venha a ter.
A nossa época é horrível porque já não cremos - e não cremos ainda.
O passado desapareceu, de futuro nem alicerces existem.
E aqui estamos nós sem tecto, entre ruínas à espera".
Uma escrita permanentemente angustiada que pôs em causa as concepções literárias vigentes na altura.
Foi influenciado pelas correntes do Realismo, do Naturalismo, do Simbolismo e do Decadentismo, e por isso mesmo sua obra é considerada excêntrica, onírica, idealista, lírica e influenciou autores tão diversos como Vergílio Ferreira, José Saramago, Maria Gabriela Llansol, José Luís Peixoto ou Rui Nunes.
150 anos depois do seu nascimento, foi lançada a colecção Raul Brandão 150 Anos.
Ao todo são oito títulos essenciais para compreender o trabalho do autor que são recuperados nas suas edições originais fac-similadas.
A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore, sobre um palhaço que partilha a casa de hóspedes da D.
Felicidade com o Pita, o homem que se entregou à vida, o doido, o anarquista, a patroa e o Gregório, cada personagem representa algo na sociedade, conversando entre si e com o autor.
Raul Brandão dedicou toda a sua vida à escrita e deixou uma obra única no contexto da literatura nacional.
É considerado um dos maiores escritores portugueses, embora pouco lido, tendo ficado ensombrado pela presença de Fernando Pessoa no panorama literário da época.
Uma obra de singular liberdade criativa, para ler e descobrir.