Poeta do tempo, do amor, da esperança, da morte, e de Deus, tudo isto entretecido como fios de uma mesma urdidura, admirável e pessoalíssima, tal pode ser a suma da poesia de Nejar. A sua religiosidade é, porventura, a característica mais "diferente". O "épico" em Nejar confunde-se também com o que nele ressuma de bíblico: o homem está perante Deus, mas, como a Moisés, não lhe é dado contemplá-lo. Deus é a tentação, o primeiro dos "fantasmas" em que Nejar acredita ou, tal como Job, roído por suas chagas, descrê e, mesmo assim, ama. Nada de mais distante de Nejar que o miticismo: a sua religiosidade é a de alguém que procura Deus e encontra, circundante, o "escuro de Deus". O segredo de Nejar é o de uma obra a um tempo clássica e moderna. Clássica, pelo que traduz de adesão à vida, prevalência sobre o egotismo da realidade humana, suas grandezas e tormentos, e ainda, pelo modo de conceber como um todo orgânico a arte incrivelmente difícil dos versos; moderna, pela livre radicação no tempo, mestria e arrojo verbal, tudo sem ponta de retórica, de modo pungente, tenso, dramático. O pathos, como escreveu sobre ele Cassiano Ricardo, de um homem sem lágrimas, e no entanto próximo, solidário e fraterno como poucos.
ANTÓNIO OSÓRIO
Sou de uma raça que procede do fogo. Não podereis calar-me
CARLOS NEJAR