A 17 de Setembro de 1939, duas semanas após a invasão da Polónia pela Alemanha,
as tropas soviéticas ocuparam a parte leste da Polónia e impuseram de pronto uma
nova ordem política e económica. Na sequência de um plebiscito, a mesma área
foi, em princípios de Novembro, anexada à Ucrânia e à Bielorússia. No início do
Inverno de 1939-40, as autoridades soviética deportaram mais de um milhão de
polacos, incluindo muitos crianças, para as várias provincias da União Soviética. Na
sequência do ataque alemão à URSS no Verão de 1941, o governo polaco, exilado
em Londres, foi autorizado pelo seu novo aliado a formar unidades militares com
os deportados polacos e, mais tarde, a transferir cidadãos polacos para campos no
Médio Oriente controlados pelos britânicos. Nesses campos as crianças puderam
frequentar escolas polacas.
As 120 redacções aqui traduzidas foram seleccionadas de entre as composições
que os alunos das mesmas escolas escreveram. O que torna estes documentos
únicos é a percepção das testemunhas: o olhar da criança capta acontecimentos
que nenhum adulto se lembraria de relatar. Numa linguagem simples e pejada de
erros ortográficos e gramaticais, as crianças registaram as suas experiências e as
suas conclusões sobre a invasão e ocupação soviética, as deportações para Leste,
e a vida nos campos de trabalho e kolkhozes, por vezes de forma assaz madura.
Os horrores da vida na URSS formaram memórias vívidas; a privação, fome, doença
e morte tornaram-se tão banais que passaram a ser aceites como qualquer facto
da vida. Diga-se ainda que, como mencionado pelos editores no seu estudo
introdutório, as crianças não sofreram sozinhas. Todos os povos sob o jugo soviético
compartilharam um mesmo destino.