Pouca gente, numa vida inteira, teve ocasião de, enquanto jovem, ver chegar o fim, a morte: "já está!". Ter estas duas palavras entre os dentes. E o ponto de exclamação. Igual ao frio que sente quem, com os pés pesados, está no centro do alçapão que vai deixar de ser tábua, substituído por abismo… a tropa do pelotão de fuzilamento apoia os dedos nos gatilhos, as cabeças descaem os turbantes para a altura dos canos das armas. Afinam a pontaria. Um sussurro de pés nas últimas filas. As costas do Manuel Matos contam os pingos de suor, frios, muito frios, um, dois, três, outro. Escorrem salgados por entre as nádegas, magras.
… o mastro erguido que navega nas ondas deixou de ser carne do freixo: os do bote do Mosca morrem todos afogados, o Malfeito naufraga e morre a companha toda, o bote do Pardal foi pelo mar abaixo e foi dar a Aveiro, o S. Pedro, do António Policarpo, afundou. Os pescadores de mar desapareceram. O que se levanta aos céus não é um freixo é uma chaminé de fábrica. Uma geração vai uma geração vem, houve um tempo em que os velhos e os novos viviam no mesmo tempo: não é o caso presente.
"… mais cinco mais dez anos morrem, ou pior, nem sabem que ainda cá estão" - isto é o que se diz dos protagonistas. São mais de vinte, a maioria dos homens esteve na guerra, o que por lá fizeram será contado; é gente cultivada, um sabe tudo de sinónimos, outro é assíduo leitor de Homero e Virgílio. Suspeita-se de uma reencarnação. Em certo sentido este livro é uma encomenda patética.