A memória pode percorrer-se através das trilhas que se cruzaram em idades diferentes ou ensarilhadas nas memórias de outros. Ao Desprotegido poderia chamar-se A Sedição de Joyce os Sons da Memória ou Abandono, como o autor chegou a pensar.
nnNa medida em que foi planeado com a intenção de dar o devido realce ao papel das crianças que povoaram o ruralismo alentejano, guardando os rebanhos, arroteando e plantando a terra e sofrendo na pele uma quase endémica violência familiar determinada a compasso da estrénua sobrevivência, deitaria por terra a intenção que lhe deu vida. Seria uma traição.
nnMas não se fica por aqui. Abeltéria é um território da água, ajoujado por um passado multissecular onde todas as correntezas deixaram vestígios. E é nestes que o autor ancora os diferentes palcos onde se consumiram e se consomem, anonimamente, tantas outras vidas.
nnComo escreveu alguém, já vai de mar a monte o debate sobre o Interior desertificado, sobre a violência, a saúde, o ensino, o assistencialismo, os direitos das mulheres e das crianças, mas há ainda muito por dizer. A divagação de Blimis, traz a terreiro um conjunto de situações onde as muitas personagens do passado e do presente se confrontaram com as suas insuficiências e as misérias de cada tempo.
nnQuatro amigos aproveitam o reencontro, em plena pandemia do SARS-coV-2, para porem de pé as inúmeras barreiras que lhes tolheram o caminho. Mas não só a eles: a todo um povo, que recusou e vai adiando a vivência plena da liberdade e a livre escolha. Em Abeltéria, ainda se consomem os dias na angústia latente de uma velha premonição.
nnA linguagem, por vezes desconexa e ininteligível, reflecte o entrelaçado asfixiante em que se envolveram os espíritos abelterienses, confrontados com o ocaso de um lugar onde a vida refulgiu. Como paga pelos maus-tratos infligidos aos seus, os governantes têm sido enjeitados, ao longo dos séculos, pelas deusas da vingança. Nada ficou, nem ficará, de um diário de coisas grandiosas, se não mudarem os atores em cena.
nnAbeltéria ou Elteri vingou no império, levada pelas mãos da água. Não tem sido cuidada de há uns tempos a esta parte, mercê de sucessivas administrações evolutivamente nepotistas. Já Cícero não o ignorava.