Para nós, 1580 é um ano de cesura: o ano que muitos tratam como sendo o da perda da independência do reino, mas que pode ser entendido — de forma muito mais adequada às percepções doutrinais da época — como sendo o do início de uma união dinástica com os mesmos reis que reinavam em Espanha. Aquilo que a nós parece dado como adquirido é menos do que evidente para quem viveu o início daquele confuso ano — ou para quem nele morreu, como o poeta Camões. Para recolher os fios à meada é necessário vir atrás, aos reinados de Dom Manuel e Dom João III, e entender a sucessão de imbricadas alianças matrimoniais e imprevistas mortes de herdeiros do trono que deixaram Portugal à espera de um Desejado, ainda recém-nascido. É também necessário seguir a trajectória do curto reinado do rei Dom Sebastião. E é ainda preciso entender de que modo a resistência à unificação da Península Ibérica se corporizou em alternativas mais ou menos realistas ou místicas: desde o contra-reinado de António, prior do Crato, até às irrupções de falsos «dons sebastiões».