Quatro anos passaram já desde as comemorações do centésimo aniversário do nascimento de Miguel Torga. Os textos aqui reunidos dão testemunho do zelo carinhoso, da atenção apaixonada e da admiração sem reserva para com uma obra ao mesmo tempo intemporal e intempestiva.
À maneira dos grandes clássicos, o escritor quis, com um trabalho obstinado de escrita e uma incansável procura da perfeição formal, arrancar os seus poemas e as suas páginas de prosa à corrente que devasta tudo o que é mortal: uma tal intenção parece querer infinitamente afastá-lo de nós. Na era da instantaneidade informática e da "sustentabilidade" financeira, a vontade de eternidade possui algo de incompreensível, de bizarro até talvez (para não dizer de "gótico"). Mesmo do seu Diário, por definição o mais nobre dos géneros, Torga quis fazer um monumento. E teve o cuidado de compor ele próprio a sua Antologia Poética, preocupado em não deixar a ninguém a escolha do que, aos seus olhos, era merecedor de perenidade. Da mesma forma, como, melhor do que intitulando a sua autobiografia A Criação do Mundo, teria podido afirmar uma necessidade metafísica de salvar a sua obra - se não a sua existência - da fugacidade dos eventos deste mundo?