Eça de Queiroz, com quem Machado fora tão severo, tinha uma admiração incondicional pelas Memórias Póstumas e costumava recitar para os amigos que o visitavam em Neully, nos arredores de Paris, o capítulo do delírio de Brás Cubas, que sabia de cor e não cansava de elogiar considerando-o uma obra-prima inimitável. Seria excelente que a geração nova, que se está iniciando nos estudos, não considerasse este livro como leitura obrigatória, e por isso desdenhável, tarefa do currículo escolar e assunto para as armadilhas do vestibular. Mas, pelo contrário, como um convite à aventura intelectual, capaz de desvendar-lhe um mundo realmente novo no plano humano e psicológico. De fato, é em Machado de Assis e no manuseio atento de livros como este que os jovens poderão fazer a sua vigília de armas para as batalhas do espírito. Ele é o mestre, o modelo insubstituível, que realiza o prodígio de ficar melhor a cada leitura que dele fazemos, aguçando-nos a argúcia e a sensibilidade e, de acréscimo, fazendo-nos mais ágeis no uso da linguagem. Em Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis constrói na figura de um defunto-autor e não um autor-defunto - como bem se define o próprio Brás Cubas -, o motivo central de sua crítica à sociedade, pois estando distanciado do mundo dos vivos, o morto Brás Cubas destrói, a partir de suas relações socias, a sociedade do Brasil do século XIX, com seus vícios, seu parasitismo e suas mesquinharias.