Um romance perturbador sobre o despertar do sexo. Quase duas décadas após a sua primeira edição, Em Nome do Desejo, do jornalista, escritor e cineasta João Silvério Trevisan, continua actual e envolvente. Denso e trágico, mas sem perder o humor e a leveza, o livro tornou-se um dos maiores sucessos editoriais com temática homossexual do país. Tudo isso ao contar a história de amor entre os seminaristas Abel e Tiquinho, jovens divididos entre a mortificação da carne e a exaltação da alma, presos entre as glórias do divino e a ebulição dos hormónios da adolescência.
Em Em Nome do Desejo, Trevisan faz uma homenagem a toda e qualquer forma de amor. Mas com uma visão incisiva e realista. "Dedico este livro," explica o autor, "aos adolescentes que descobrem-se amando contra a corrente e ainda que perplexos, amam". Adolescentes como Tiquinho, enlouquecido de desejo por Abel, descrito por ele como um Jesus Cristo de olhos ligeiramente amendoados, cabelos muito negros, corpo erecto, feições bondosas e um vigoroso brilho no olhar. Um sentimento que tenta combater usando as regras do seminário: buscar a morte de todo o pecado e o corpo era o seu túmulo.
Em Nome do Desejo é um romance extremamente bem-realizado e envolvente. A história é simples: após trinta anos, um homem retorna ao seminário onde estudou, transformado em orfanato, e mergulha nas suas recordações. Principalmente na vivência do seu primeiro amor, do tempo em que era conhecido apenas por Tiquinho. Agora, é um homem amargo, quase alcóolatra, dividido entre o que se espera dele - casamento e sucesso na carreira - e a sua verdadeira natureza. É este o guia escolhido por Trevisan para levar o leitor através de labirintos de desejo proibido e mortificação.
Para contar a história de Em Nome do Desejo, o autor valeu-se do esquema de perguntas e repostas presentes no catecismo. Outra referência religiosa são os belíssimos e torturados poemas de São João da Cruz e Teresa D''Ávila, com toques eróticos/divinos. Uma beleza sensual em contraponto à rigidez católica que culmina na realização carnal do amor de Tiquinho e Abel. Justamente na Semana Santa. Mas esse amor perfeito, após atingir o seu apogeu, cai e transforma-se num ódio tão ou mais intenso.
Em Nome do Desejo não é apenas um romance homossexual, mas sim um estudo sobre os papéis sexuais no momento em que a sexualidade irrompe com maior força.